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28 de octubre de 2018

Os amplíssimos horizontes da ingenuidade humana

Nova et Vetera
 
Os amplíssimos horizontes da ingenuidade humana



Legionário, 10 de março de 1946, N. 709, pag. 5
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SEGUNDO um dos mais argutos estudiosos da ação das forças secretas na sociedade hodierna, a obra revolucionária a que estamos presenciando poderia ser representada pelo movimento de um pêndulo, de oscilações descrentes. A humanidade é levada aos paroxismos de determinada agitação política ou social e ao reagir contra os excessos ou contra os erros em que se emaranha, é “dirigida” para o lado oposto, sem de início perceber que está sendo tangida para uma pseudo-reação. E assim arrastada de um lado para outro, aos poucos vai perdendo a capacidade de discernimento e de luta, para, afinal, indiferente e embrutecida, permanecer imóvel e mitridatizada, à mercê das maquinações do poder oculto.
* * *
Se essa imagem é bem expressiva para a ação das sociedades secretas de um modo geral, ela tem uma aplicação toda especial no jogo “direita totalitária” versus “esquerda totalitária”. O Legionário não se cansa de mostrar a lamentável ingenuidade dos que sinceramente acreditam na oposição entre os dois grupos, e que julgam ser o totalitarismo da direita um movimento realmente “reacionário” e de combate à esquerda bolchevizante. 
    
A verdade é que a direita totalitária é tão revolucionária e socialista quanto a esquerda, provindo das mesmas mãos os cordéis que regulam seus movimentos. Esquerda totalitária e direita totalitária são fantoches bifrontes, usados ora para assustar, ora para atrair os ingênuos, num jogo sincronizado que acabará por cansar a humanidade, lançando-a nos braços do omniarca que reimplantará no mundo o paganismo.
Para impedir tal “volta ao vômito”, a que alude São Pedro, a humanidade terá que recorrer à Santa Igreja, e à sua doutrina, em vez de apelar para esses fantoches “salvadores”.


TEXTO ORIGINAL EN SU CONTEXTO










12 de agosto de 2016

Plinio Corrêa de Oliveira: Cristandade e Oriente



Plinio Corrêa de Oliveira


Cristandade e Oriente






Legionário, N.º 557, 11 de abril de 1943

   


Todos os compêndios de História, mesmo os mais elementares, são acordes em afirmar que um dos grandes fatores da decadência muçulmana foi a divisão intestina que lavrou entre as várias seitas em que se dividiram os sequazes de Maomé. Enquanto essas contendas internas estagnaram o surto maometano, os países ocidentais, levados pelo incomparável fermento de progresso que só a civilização cristã católica pode dar, se desenvolveram imensamente. Assim, quando a facilidade dos meios e vias de comunicação, obtida mediante as invenções do século passado (XIX), puseram novamente frente a frente cristãos e maometanos, a superioridade cultural, econômica e militar dos ocidentais era manifesta. Agíamos para com os muçulmanos como adultos para com menores de idade: com desenvoltura, autoridade... e não raras vezes condenável tirania.

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Mas as coisas mudaram muito de aspecto. Os recursos materiais do Oriente começaram a ter um papel cada vez mais importante na vida dos povos do Ocidente. E como a guerra total veio dar caráter marcadamente político às competições econômicas - ou, se preferirem, caráter marcadamente econômico às competições políticas - daí decorreu que o papel político do Oriente na solução dos problemas que cindem o Ocidente passou a ser de primeira grandeza. A intensa militarização do Japão acentuou singularmente este fenômeno.

* * *

Numa época em que os valores se medem pela força, os problemas militares, sempre nobres e importantes, adquiriram uma importância maior do que nunca. Mas a mecanização da guerra tornou todos os conflitos estritamente técnicos! Vencem os melhores armamentos, admitida igualdade de valor entre os combatentes. E, como armamentos significa dinheiro, em igualdade de condições morais vence o mais rico, isto é, o mais bem municiado, o que estiver dotado de melhores meios mecânicos para o combate.

* * *

Não será difícil, pois, armar de futuro os orientais com armas ocidentais para que intervenham em nossas lutas, não só com recursos econômicos imensos, mas já então com armamento perfeito. Valentia não lhes falta. E tudo isto importa em dizer que a menoridade dos povos orientais está chegando ao seu termo.

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Do ponto de vista da Igreja, o fato não seria grave, considerado em tese. A Igreja é Mãe do Oriente tanto quanto do Ocidente, e nada deseja senão o progresso de todos os povos nas sendas da civilização católica, com rumo à eternidade. O que lhe interessa é a salvação das almas. De todas as almas. E isto sem distinção entre o Ocidente e o Oriente.

Mas o fato é que o Oriente ainda é em grande escala pagão. O Ocidente ainda é em certa medida cristão. O entrechoque das duas forças ocasionará inevitavelmente um risco para a Igreja.

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E não se sorria. Não nos consola a idéia de que, imortal, a Santa Igreja jamais soçobrará. Graças a Deus estamos certos disto. Mas não nos basta que a árvore não caia por terra. Não queremos ver a ventania quebrar seus galhos majestosos, onde circula como seiva o próprio Sangue de Cristo. Não queremos ver arrancadas pelo vendaval as folhas outonais, isto é, as almas tíbias que a todo o custo e até o último instante de nossa vida, até mesmo com os maiores sacrifícios, queremos salvar. Nosso Senhor, que veio ao mundo para dar novo vigor ao arbusto partido, quer que reverdeçam as folhas outonais na árvore da Santa Igreja. Uma só que se desprenda é uma catástrofe maior do que se o sol se apagasse. O que significa de riscos, de ruínas morais, de miséria de toda ordem uma hegemonia pagã sobre os escombros do mundo cristão, só Deus o sabe.

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E não se argumente com a queda do Império Romano e as invasões dos povos bárbaros, em seguida ao que veio o esplendor da Idade Média. Ter-se-ia quase a impressão de que a queda do Império do Ocidente foi um bem! Não, foi um grande castigo, uma imensa e deplorabilíssima desgraça, que ocasionou à Santa Igreja males sem conta. Ela não morreu, é certo, mas cresceu de futuro. Nem por isto o que foi castigo deixou de ser castigo. É este o fato.

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Tudo isto, dizemo-lo para afirmar que o “Legionário”, pronto como sempre para atender a tudo quanto deseja a Santa Igreja, vê entretanto com clareza maior do que nunca a importância da obra missionária, que deve reconduzir à vida da graça os infiéis e pagãos. Não identificamos a Igreja com o Ocidente. Desde que sejam todos católicos, tudo estará bem. Mas é absolutamente indispensável que, enquanto o Oriente não estiver convertido, não se fale nos comentários, telegramas de jornal, e tratativas referentes à política internacional, na constituição de grandes blocos pan-maometanos, pan-hindus, pan-amarelos, por mais belos e sedutores que sejam estes projetos do ponto de vista temporal. Teremos consolidado contra nós os adversários de nossa civilização, estruturando-os politicamente em grandes potências.

Vender-lhes-emos armas: isto é indubitabilíssimo.

Introduzi-los-emos em nossas brigas domésticas: até já o fizemos.

Faremos de seus recursos materiais grande parte da base de nossa vida econômica: nem é possível que procedamos de outra forma. E quando, conscientes de sua força, eles quiserem estruturar um mundo novo com o poder que lhes demos, e sem os princípios da civilização católica, que não lhes demos ou que eles rejeitaram, então será talvez tarde para abrir os olhos!



11 de agosto de 2016

"A Igreja, já sendo depositária da verdade, não pode deixar de cumprir sua missão que, consistindo em pregar às máximas do Evangelho, comporta evidentemente um ataque a todos os erros que a tais máximas se opõem."

Plinio Corrêa de Oliveira

 

7 Dias em Revista

"A Igreja, já sendo depositária da verdade, não pode deixar de cumprir sua missão que, consistindo em pregar às máximas do Evangelho, comporta evidentemente um ataque a todos os erros que a tais máximas se opõem". 



Legionário, N.º 458, 22 de junho de 1941

  
Sem embargo do que esta folha já afirmou quanto à plausibilidade de um breve entrechoque nazi-comunista, é interessante mostrar que as relações entre aqueles dois regimes totalitários continuam perfeitamente cordiais. E não se trata apenas da cordialidade de relações: a cooperação política contínua e eficaz que a III Internacional vem prestando ao desenvolvimento dos planos nazistas, continua efetiva e indiscutível. Assim, o comunismo continua a solapar a resistência inglesa à ofensiva do III Reich e a importância dos manejos comunistas tem sido tal, ultimamente, que se tornaram necessárias sérias medidas de repressão contra a atividade da III Internacional em Manchester. Se a III Internacional fosse uma inimiga autêntica do nazismo, ela jamais se prestaria ao papel de sabotadora das atividades britânicas, exatamente no momento em que qualquer declínio nestas atividades pode ter conseqüências triunfais para o Sr. Hitler.

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O General Huntziger, comandante em chefe das forças de Vichy, dirigiu aos sírios e libaneses um longo telegrama em que, enumerando os incontestáveis benefícios que a França lhes prestou, mencionou o “estabelecimento no território sírio-libanês de uma harmoniosa concórdia entre o cristianismo e o islão”.

O mínimo que se pode dizer desta afirmação é que tem um cunho acentuadamente confusionista. Evidentemente, é desejável que os muçulmanos e os católicos, desde que devam conviver num mesmo território, evitem quaisquer conflitos que sejam realmente estéreis. Entretanto, daí não se deve inferir que a luta entre a Cruz e o crescente deva desaparecer, e que uma concórdia baseada no sacrifício dos mais sagrados direitos da Igreja possa legitimamente existir naquela região. A Igreja, já sendo depositária da verdade, não pode deixar de cumprir sua missão que, consistindo em pregar às máximas do Evangelho, comporta evidentemente um ataque a todos os erros que a tais máximas se opõem. A gloriosa missão da França no Oriente não tem consistido em acomodar doutrinas irreconciliáveis, mas em se constituir paladina da Igreja Católica. Assim, não podemos deixar de lamentar uma afirmação tão imprecisa do general Huntziger, afirmação que deixa transparecer a esperança de, encobrindo a missão histórica e tradicional da França, atrair com mais facilidade as boas graças dos maometanos.

* * *

Tanto mais digno de nota é a afirmação daquele militar quanto ele afirma, no mesmo documento, que a França deve “prosseguir na união fecunda das duas culturas”, cristã e maometana. Como pode haver fusão entre estas duas culturas? Como não compreender que essa fusão implicaria em colocar em pé de igualdade a Verdade e o erro?

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 Desejamos ardentemente que seja infundada a notícia procedente de Nova York de que o governo de Vichy ordenara a transferência de 40.000 quilos de ouro belga, depositado em Marrocos, para a Alemanha, a fim de ser entregue ao governo nazista. Este ouro representa uma parte do patrimônio nacional belga, e foi enviado para a França antes da invasão da Bélgica, permanecendo mais de um ano nas Caixas fortes do Banco da Argélia. Foram necessárias, segundo a notícia da United Press, que temos em mão, 40 viagens pelo Mediterrâneo para efetuar o transporte desse ouro.

Infelizmente, porém, receamos que a notícia não seja falsa, e, que constitua mais uma prova da adesão vigorosa que o governo de Vichy presta ao III Reich.

26 de julio de 2016

Plinio Corrêa de Oliveira: Filhos das trevas e filhos da luz

Plinio Corrêa de Oliveira
Filhos das trevas e filhos da luz

Legionário, N.º 793, 19 de outubro de 1947



      Há poucas semanas, os maometanos alcançaram um triunfo indiscutível na Índia, com o reconhecimento oficial do Estado do Paquistão. As comunidades islamitas daquela região, que viviam sob direção inglesa, coarctadas a todo momento em sua liberdade de movimentos pelo incomodo convívio com os braamistas, se viram finalmente independentes daqueles, e dissociados destes. Uma nova unidade política maometana surgiu no concerto das nações, representando um povo rejuvenescido, pujante, rico e colocado em situação geográfica e política de indiscutível importância. 

Enquanto este fato se dá no extremo oriente da Ásia, o mundo maometano se mobiliza inteiro na orla do Mediterrâneo para nova empresa, em favor da qual vibram todos os adeptos do Profeta, desde o Ganges até o Marrocos. É a "guerra santa" - sim, uma verdadeira guerra santa - pela posse dos Lugares Sagrados. 

Já temos tratado por vezes do problema da Terra Santa. Voltaremos a ele hoje, porque, se bem que o Ocidente e especialmente o mundo católico pareça dormir, há dois motivos de ordem religiosa, ambos transcendentais, que nos forçam a não perder de vista esta questão. Em primeiro lugar não nos podemos esquecer de que a Terra Santa, na qual se passou toda a História Sagrada, na qual sobretudo nasceu, viveu, ensinou, padeceu e morreu  Nosso Senhor Jesus Cristo, é para nós, depois da Eucaristia e da Sé Romana, o que há de mais sagrado no mundo. Tanto isto é verdade, que nossos maiores empenharam os esforços mais extremos e ousados para que a Terra Santa não ficasse em poder dos infiéis. Somos do sangue dos cruzados, e não nos podemos esquecer de que o ideal da libertação do Santo Sepulcro empolgou e levou até o sacrifício do sangue e da vida várias gerações de mártires cristãos. Em segundo lugar, a propósito da posse da Terra Santa, os maometanos estão revelando uma solidariedade, uma energia, um brio que mostra claramente que tudo caminha para a formação de um formidável super-Estado maometano afro-asiático. No próprio momento em que URSS, com suas nações satélites ou escravas, ameaça o Ocidente, o aparecimento de mais este inimigo só pode ser indiferente aos políticos imediatistas, e de vistas curtas. Por tudo isto, a questão maometana, que, se não é ainda inteiramente uma questão de hoje, já é indiscutivelmente uma grave questão de amanhã, nos interessa e nos preocupa. Vejamos, pois, de que forma ela está evoluindo. 

Não o faremos, porém, sem afirmar previamente que, na luta entre judeus e maometanos, absolutamente não temos preferências nem simpatias. Somos do tipo de católicos que se recusam obstinadamente a escolher entre [uns e outros]; e que, postos nesta alternativa, só têm uma resposta que dar: viva Cristo-Rei! 

* * *

A Terra Santa é Terra Santa para a Santa Igreja, e para todas as seitas e igrejolas na Europa, da Ásia Ocidental e da África Setentrional, a títulos aliás bem diversos. Lá se passaram os fatos relevantes do Antigo Testamento, de onde o interesse dos judeus. Lá se passaram também os fatos do Novo Testamento: motivo a mais para o interesse dos católicos, dos protestantes, dos cismáticos. Lá se passaram, ainda, muitos dos fatos da história religiosa dos maometanos: de onde o interesse do seguidores do  "Profeta". Estes motivos religiosos, que dão tanta importância à Terra Santa, são conhecidos, antigos, e fundamentais. Ele interessa os cristãos, judeus e muçulmanos do mundo inteiro, ou seja a maior parte dos habitantes do globo. Ao lado deles, há uma questão étnica e política muito menor, mas irritante. Os judeus se julgam no direito de voltar à Palestina. Sobretudo agora, devido à possibilidade de novo conflito mundial, eles se precipitam para lá, um pouco de todos os pontos do universo. Ora, o super povoamento judaico da Palestina colocará em inferioridade numérica e política (sem falar da inferioridade econômica, já se vê), os muçulmanos, religiosa e racialmente inimigos dos judeus. De onde uma reação árabe contra  este fato. No meio disto, tratados como bagaço, estão os cristãos da Palestina e Síria. Os católicos do resto do mundo pouco se interessam por eles. Eles mesmos parecem ter uma visão muito confusa dos riscos que correm, quer com o predomínio dos árabes, quer com o dos judeus. São quantité  négligeable neste jogo confuso e temível. 

Diga-se, para completar este quadro, que a imigração judaica na Palestina deu maior atualidade ao problema, mas que ele já é velho. De há muito, os judeus estão afluindo para a Terra Santa, onde já construíram uma cidade monumental e moderníssima, Tel-Aviv. O protesto árabe contra este fato também é velho.  O que no problema não é velho é que, até há algum tempo atrás, os árabes da África ou mesmo da Ásia meridional se mostravam totalmente desinteressados do problema. Vivendo sob a ação de um torpor secular, não se preocupavam com o aspecto religioso do caso. Politicamente falando, seus problemas eram inteiramente independentes dos da Palestina. Assim, assistiam indiferentes ao desenrolar dos fatos, limitando-se quando muito a alguma atitude puramente platônica, de solidariedade para com os árabes da Palestina. Politicamente, o problema palestiniano continua igualmente desinteressante para as potências maometanas. Mas todas elas passam  por um renascimento nacionalista e religioso verdadeiramente assombroso. O sopro desse renascimento percorre toda a imensa faixa que vai do litoral atlântico do Marrocos até o Paquistão. E, em virtude do renascimento religioso do que poderíamos chamar a "islamidade", o problema palestino passou a interessar todo o mundo maometano. Por isto, o "caso" judaico-árabe da Terra Santa se  transformou no ponto álgido da política norte-africana e asiática. Tivemos uma amostra disto na violência das manifestações anti-brasileiras ocorridas no Egito pelo simples motivo de que  nosso representante na ONU votou contra os elementos árabes da Palestina.  A luta está concorrendo por sua vez para estimular ainda mais o renascimento pan-árabe e pan-maometano. E, assim, os acontecimentos vão dando aos muçulmanos do mundo inteiro uma consciência cada vez mais nítida, mais vigorosa, de sua unidade, de seu poder, de seus interesses religiosos e políticos comuns. 

De há muito, tudo caminha neste sentido. Alguns fatos do noticiário político desta semana, que motivaram mais proximamente este artigo,  mostram que o movimento para a formação de um mundo pan-islâmico se está acelerando cada vez mais. 

Com efeito, de há muito os estados Árabes constituíram uma Liga que é uma pequena ONU maometana. Ou antes - quanta é nossa dor ao dize-lo - um Sacro Império, não Romano Alemão, mas maometano anticristão. Já não se pode falar mais de uma Cristandade em nossos dias, e aí está diante de nós, pujante e agressiva, a Islamidade. A isto chegamos. Choramos aos pés da Cristandade quase arrasada, como os judeus junto ao muro das lamentações... 

Esta Islamidade, funcionando como outrora funcionava a Cristandade, reuniu-se em Beirute, em sessão plenária da Liga Árabe, e decretou uma espécie de cruzada: pela unanimidade dos presentes, foi resolvido que todos os Estados maometanos mobilizassem seus recursos militares em defesa dos árabes da Terra Santa. As tropas do Egito e da Síria já estão aptas a marchar a qualquer momento. 

O eco desta mobilização geral já chegou até Tanger, no outro extremo da África. O delegado do Partido Nacionalista Reformista da zona espanhola do Marrocos já declarou que todos os partidos muçulmanos da África do Norte atenderão à ordem de mobilização da Liga Árabe, por meio de um ou alguns corpos expedicionários, que participarão de todas as operações de “libertação”. 

Não se tenha a ilusão de que os motivos religiosos são secundários em tudo isto. Um telegrama de Damasco já vem declarando que naquela cidade “se anuncia que a Guerra Santa será proclamada entre os dias 24 e 28 do corrente, durante as comemorações árabes da festa do sacrifício no Iraque. Essa resolução talvez seja tomada durante a reunião de chefes árabes na Síria”. Acrescenta o telegrama que “as capitais dos Estados árabes estão em constante comunicação discutindo-se as últimas medidas e fixando-se a ordem do dia para a próxima reunião dos chefes. Anuncia-se também que os líderes árabes discutem a questão do comando do exército árabe, que talvez seja confiado ao general reformado Tahan Hachimi, do Iraque, que é pessoa de confiança daqueles chefes”. É possível que estes rumores não se realizem inteiramente. Em todo o caso, o simples fato de que eles tenham tomado tal corpo que as agências telegráficas o tenham difundido pelo mundo inteiro, prova bem em que direção se orientam os espíritos, e qual lhes parece a natureza profunda do problema, e o rumo que normalmente ele deverá tomar. 

Discursando em Argel na semana passada, o general De Gaulle aludiu de certa forma a todos estes fatos, quando mostrou que a África Setentrional Francesa está imergindo no caos, na agitação, na anarquia, e censurou por isto a debilidade manifesta do atual gabinete. O problema entrou, pois, de cheio, na esfera da grande política. 

Mas os católicos continuam a dormir. No Horto das Oliveiras, eles dormiram também...