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21 de abril de 2018

Uma tradicional dama paulista

Agência Boa Imprensa – ABIM

Uma tradicional dama paulista

Dona Lucilia aos 16 anos
Dona Lucilia aos 16 anos
A revista Catolicismo deste mês publicou uma muito substanciosa entrevista com o Dr. Adolpho Lindenberg sobre sua saudosa tia, Dona Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira. Esta tradicional dama paulista que trouxe ao mundo o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, e que exerceu grande influência na sua formação católica, faleceu em 21 de abril de 1968. Em memória do cinquentenário de seu falecimento reproduzimos aqui a mencionada entrevista publicada em sua homenagem.

Por ocasião do cinquentenário do falecimento dessa tradicional dama paulista (*22-4- 1876 +21-4-1968), Catolicismo não precisou sair dos círculos de seus redatores para encontrar alguém capaz de comunicar aos nossos leitores — que já conhecem muito bem Plinio Corrêa de Oliveira — alguns traços daquela que trouxe este insigne líder católico ao mundo e exerceu grande influência na sua formação. Dr. Adolpho Lindenberg, decano dos nossos colaboradores, guarda muitas recordações de sua “saudosa tia Lucilia”.
Dona Lucilia pertencia à tradicional classe dos paulistas denominados quatrocentões — provenientes dos fundadores ou dos primeiros povoadores da cidade de São Paulo — e tinha entre seus ascendentes vários bandeirantes famosos. Dentre os antepassados maternos do Prof. Plinio, destacou-se durante o reinado do Imperador D. Pedro II o ilustre Prof. Gabriel José Rodrigues dos Santos, catedrático da famosa Faculdade de Direito de São Paulo, advogado, orador de grandes dotes, deputado provincial e mais tarde nacional.
Além de nosso decano, o entrevistado é um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e atual presidente do Instituto que leva o nome de seu primo-irmão, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Engenheiro pela Universidade Mackenzie, sua atividade profissional sempre esteve relacionada com a Construtora Adolpho Lindenberg, uma das mais conceituadas do País, que se notabilizou pela reintrodução do estilo colonial e o lançamento do estilo neoclássico na construção de edifícios.

Dr. Adolpho Lindenberg “Ela foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos costumes”
Dr. Adolpho Lindenberg
“Ela foi muito emblemática do ideal perfeito
de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo,
monarquista e tradicionalista, não pactuava
com o relaxamento dos costumes”
Catolicismo — Em que época o senhor mais conviveu com sua tia Lucilia e com seu primo Plinio Corrêa de Oliveira?
Dr. Adolpho — Na época em que éramos crianças, e convivíamos na casa de nossa avó, Gabriela Ribeiro dos Santos, mãe de Da. Lucilia. Vovó era uma senhora muito aristocrática, que marcou época na sociedade paulista do início do século passado.
Catolicismo — Antes de passarmos às perguntas sobre Da. Lucilia, desejaríamos conhecer algo mais da personalidade de Da. Gabriela. Alguma lembrança que o senhor pudesse narrar a respeito?
Dr. Adolpho — Na sala de visitas do apartamento onde morou tia Lucilia há uma bela pintura de minha avó Gabriela, num quadro muito elogiado por Dr. Plinio [foto abaixo]. Retrata uma bela senhora matriarcal, que teve relações de amizade com a Princesa Isabel. Tia Lucilia recordava-se do vovô Antonio (esposo de Da. Gabriela) como tendo sido um homem boníssimo, pleno de qualidades, enquanto vovó




“Tia Lucilia recordava-se do vovô como um homem boníssimo, pleno de qualidades, enquanto vovó Gabriela tinha deixado a recordação de uma senhora bonita, imponente e inteligente”

“Tia Lucilia recordava-se do vovô
como um homem boníssimo, pleno
de qualidades, enquanto vovó Gabriela tinha deixado a recordação de uma senhora bonita, imponente e inteligente”
Gabriela tinha deixado a recordação de uma senhora bonita, imponente e inteligente. Quando eu era menino, ela aparentemente me ignorava, mas só anos depois vim a compreender que nessa atitude anti-igualitária ela demonstrava apenas uma segurança, uma nota aristocrática e dominadora, uma superioridade diante da qual um menino hesitava.
Plinio Corrêa de Oliveira e sua irmã Rosée











Catolicismo — Poderia descrever como era o convívio no ambiente da casa de Da. Gabriela?
Plinio Corrêa de Oliveira e sua irmã Rosée
Dr. Adolpho  A família Ribeiro dos Santos se destacava pela loquacidade, e o convívio naquele ambiente era animadíssimo. Conservo muitas lembranças e saudades desse convívio com toda a parentela. Nem preciso dizer o quanto Plinio, com sua vitalidade, colaborava nessa animação, por exemplo, formando rodas de conversas agradabilíssimas. Ele proseava com muito bom humor sobre qualquer coisa, desde grandes fatos históricos, passando por episódios ocorridos com nossos tios, até as cores das pedras. Costumo lembrar o dito de Talleyrand: “Quem não viveu na França no período anterior à Revolução Francesa [1789], não conheceu a doçura de viver”. Posso afirmar que algo dessa “doçura de viver” existia em nossa família, na então pequena cidade de São Paulo. Recordo-me de que, alguns meses antes da morte de Dr. Plinio, eu mantive com ele uma conversa durante a qual ele se lembrou daqueles antigos tempos, no convívio com sua irmã Rosée, seus primos e amigos na casa de vovó. Ele, muito mais do que eu, sentia saudades do bem-estar desse pequeno microcosmo que era o nosso ambiente familiar.

Em 1912, Da. Lucilia em Paris
Em 1912, Da. Lucilia em Paris
Catolicismo — E como era a presença de Da. Lucilia nesse “microcosmo” na casa dos Ribeiro dos Santos?
Dr. Adolpho — Tia Lucilia dispensava um trato muito cerimonioso às pessoas — com os filhos e sobrinhos, com seu esposo, meu tio João Paulo, até com seus pais, pelos quais ela nutria uma verdadeira veneração. Muito diferente de certas pessoas modernas, que usam um trato excessivamente íntimo. Ela não apreciava esse tipo de comportamento “sem-cerimônias”, por assim dizer, sem certa solenidade de atitudes. Ela era solene por natureza, o que tornava o ambiente da casa de vovó muito agradável e elevado.

Catolicismo — Quais suas impressões sobre a figura de sua tia, e o que mais o impressionava nela?
Dr. Adolpho — Eu quase não comento sobre o modo de ser de tia Lucilia, mas quando aparece uma boa oportunidade, causa-me alegria poder falar dela. Não é fácil, para aqueles que não a conheceram pessoalmente, compreender inteiramente sua figura. Impressionava-me muito, além de sua amabilidade e paz de alma, a força de seu olhar. Olhar de uma pessoa reta, honesta, e de uma superioridade ímpar. Quem não é reto e honesto poderia até ficar envergonhado na sua presença. Olhar muito meigo, muito bondoso, mas quem não estivesse com a consciência em paz não gostava muito. Era o encontro de olhares entre uma pessoa virtuosa e outra sem virtude. Muito me impressionava o olhar dela, que incentivava as pessoas a enfrentar as dificuldades da vida.
Ela foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos costumes, com as modas extravagantes. Lembro-me dela visitando-me quando eu ficava doente. Ela lia para mim livros interessantes que exaltavam o heroísmo, como o livro dos Três Mosqueteiros. E aplicava a leitura dando bons conselhos, advertindo-me dos perigos que poderia enfrentar em minha vida. Ela me causava a impressão de ser uma senhora muito cerimoniosa e de uma geração anterior. Nesse sentido, nunca tingiu nem cortou curtos os cabelos, não se pintava, usava vestidos muito discretos.

Dr. Plinio e Dr. Adolpho Lindenberg
Dr. Plinio e Dr. Adolpho Lindenberg
Catolicismo — Da. Lucilia era enérgica em exigir dos filhos o cumprimento dos deveres diários?
Dr. Adolpho — No período anterior à Primeira Grande Guerra, notava-se a rivalidade entre a França e a Alemanha. Muitos no Brasil pareciam divididos: os francófilos e os germanófilos. Tia Lucilia amava a França, e meu pai amava a Alemanha. Assim, apesar de tia Lucilia demonstrar equilíbrio, ele se queixava de sua cunhada. Ela era de uma cortesia admirável, manifestava muito afeto às pessoas de bom coração, mas era intransigente em relação às pessoas más, e não cedia ao erro. Até no relacionamento com os filhos, mesmo sendo extremamente afetuosa, exigia deles o cumprimento integral do dever, das obrigações diárias, etc.
Por isso, elogiava para os filhos o modo de ser do alemão, disciplinado no cumprimento do dever. E foi certamente por isso que ela escolheu para os filhos uma governante alemã, a Fräulein Mathilde Heldman [foto abaixo], fato que deixou papai muito satisfeito… Dr. Plinio admirava muito essa Fräulein bávara, pois ela o ajudou a apreciar o estilo de vida europeu, as tradições e a nobreza europeia, as grandes famílias e figuras do Velho Continente. Com sua cultura, essa governante colaborou na formação de Rosée e de Plinio e no aprendizado da língua alemã, mas também do francês e do inglês.
Plinio acompanhado de sua irmã e de sua prima, com a Fräulein Mathilde
Plinio acompanhado de sua irmã e de sua prima, com a Fräulein Mathilde
Em 1912, num período em que Da. Lucilia sofria de cálculos biliares, ela viajou de navio à Alemanha com vários membros da família — Plinio tinha apenas quatro anos, e eu nem tinha nascido —, para submeter-se a uma cirurgia com um especialista que era médico do Kaiser, o Dr. Bier. Certamente essa viagem colaborou para aumentar nela e nos filhos a admiração pelo modo de ser alemão, o amor à ordem, à disciplina, etc.
Tia Lucilia e a Fräulein Mathilde colaboraram para formar a Weltanschauung (visão de mundo) do Dr. Plinio. Podemos notar isso em sua vida e em seus escritos, por exemplo, no livro Revolução e Contra-Revolução e em sua última obra, Nobreza e Elites Tradicionais Análogas. Alguns de meus tios ficavam meio perplexos com essa Weltanschauung adquirida por Plinio, com seu modo de ser categórico, e pareciam pensar: “Como é que Lucilia, tão cordata, foi ter um filho tão afirmativo como esse? É realmente inconcebível”.

Catolicismo — Como explicar esse modo de ser categórico de Dr. Plinio, sendo sua mãe tão serena?
Dr. Adolpho — O que levou Plinio a tomar posições categóricas foi sua luta contra-revolucionária em defesa da Igreja e da Cristandade, embora temperamentalmente ele se assemelhasse à sua mãe. Ele foi um menino muito plácido, pacífico, até fleumático, gostava de ficar contemplando as coisas da natureza. Já contei que numa fotografia de família aparece minha prima Rosée, menina de sete anos, andando por uma calçada, muito atenta a tudo, levando pela mão o irmão, dois anos mais novo que ela. Plinio parece distraído, tranquilamente contemplando alguma coisa.
Mas foi devido à sua luta que ele se viu obrigado a tornar-se um polemista, um cruzado, a discutir para defender a glória de Deus. Quando jovem, vivendo ainda em casa de vovó, ele analisava muito as ideologias modernas enquanto penetravam nos modos e no pensamento de seus primos. E procurava alertá-los, para rejeitarem o que aparecia de ruim no mundo moderno com suas extravagâncias. Tia Lucilia também ficava assustada com as extravagâncias que iam surgindo, as modas em geral.
“Ela foi muito emblemática do ideal perfeito de mãe, esposa, filha e tia. Católica ao máximo, monarquista e tradicionalista, não pactuava com o relaxamento dos costumes”
“Dr. Plinio se recordava perfeitamente do modo como Tia Lucilia definiu o relacionamento virtuoso e perfeito numa família: ‘Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem’”
Catolicismo — Portanto, ela não foi uma mulher considerada “moderna”.
Dr. Adolpho — Tia Lucilia, com seu temperamento calmo e modos aristocráticos, criava em torno de si uma atmosfera tranquila, oposta às agitações do mundo dito moderno. Ela morreu no século XX, mas, por assim dizer, contagiava as pessoas ao seu redor com aquela atmosfera suave e tranquila do século XIX. Poder-se-ia mesmo falar em “atmosfera luciliana”, usando uma espécie de neologismo. As pessoas podiam chegar aflitas e agitadas à sua casa, mas ela as “serenava” com sua calma e carinho, e aos poucos elas se livravam da agitação. O próprio Dr. Plinio disse que ela era excelente consoladora das pessoas: “Quando dela me aproximava, devido a alguma aflição ou numa situação sem saída, bastava ouvi-la dizer ‘meu filho, o que é?’, e metade do problema já se desfazia”. Ela resolvia com muita benevolência as dificuldades das pessoas, e elas saíam contentes.

Catolicismo — O que o senhor diria sobre as devoções de Da. Lucilia?
Imagem do Sagrado Coração de Jesus, do pequeno oratório de Da. Lucilia
Imagem do Sagrado Coração de Jesus, do pequeno oratório de Da. Lucilia
Dr. Adolpho — Muitíssimo devota do Sagrado Coração de Jesus, tia Lucilia tinha especial predileção pela Igreja do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Campos Elíseos no qual ela residia, e lá assistia às missas dominicais junto com seus filhos. Como se pode ver ainda hoje, essa Igreja foi decorada com muito bom gosto, belos vitrais, pinturas e imagens. Seu ambiente, com aspectos sobrenaturais, convida verdadeiramente à piedade. Pode-se dizer que o bom temperamento dela e seu modo de ser misericordioso tinham como motivação sua devoção ao Sagrado Coração, do qual possuía duas imagens: uma num pequeno oratório em seu quarto [foto abaixo]; e outra talhada em alabastro, sobre uma coluna no salão [foto mais abaixo], diante da qual passava um bom tempo rezando.
Tia Lucilia enviou muitas cartas ao Dr. Plinio, quando ele viajava para alguma cidade do Brasil ou do exterior. Eis o que escreveu numa delas: “Agradou-me imenso saber que, quando tens saudades minhas, rezas diante do meu oratório. Eu também rezo tanto por ti. O Sagrado Coração de Jesus, nosso amor, será tua salvaguarda e protetor, filho querido do meu coração!”.
Oratório do Sagrado Coração de Jesus no quarto de Da. Lucilia
Oratório do Sagrado Coração de Jesus
no quarto de Da. Lucilia
De outra carta, escrita por Da. Lucilia quando meus primos eram adolescentes, destaco estas linhas: “Você [Plinio] e Rosée são confiados a Deus antes de nascer. Portanto, com fé e amor a Deus, vocês não poderão deixar de ser felizes, tanto mais que por vocês eu rezo noite e dia, e é natural que as preces de uma mãe católica, mesmo de tão pouco mérito, sejam atendidas por Nossa Senhora, que também é mãe, e por Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Para pessoas de fora de seu círculo mais restrito de amizades, Dr. Plinio não falava muito de sua mãe, mas para nós, quando indagado sobre o seu relacionamento com ela, deixava claro o papel que ela exerceu a fim incrementar nele a fé católica e aumentar sua devoção aos Corações de Jesus e Maria.

Catolicismo — Dr. Plinio deixava transparecer a sua gratidão a Da. Lucilia?
Dr. Adolpho — Dr. Plinio, certa vez, comentou o seguinte sobre sua mãe: “Era verdadeiramente uma senhora católica. Ninguém pode imaginar o bem que ela me fez. Estudei sua bela alma com uma atenção contínua, e era por isso mesmo que eu gostava dela. A tal ponto que, se ela não fosse minha mãe, mas a mãe de outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e daria um jeito de ir morar junto a ela. Mamãe me ensinou a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica”. Difícil encontrar louvor maior de um filho em relação à sua mãe.
Ela foi mãe modelar, tanto no incentivo ao bem quanto na censura ao mal. Por exemplo, na correção de alguma travessura dos filhos e sobrinhos, procurava fazê-los compreender no que estavam errados e como aquilo não era do agrado de Deus, ao mesmo tempo em que incutia nos pequenos como era belo agir com retidão. Mas também, quando alguma criança praticava algo louvável, era a primeira a elogiar e incrementar nela o quanto a vida virtuosa era deleitável.
Procurava mostrar que, mesmo se tornando mais dura a vida de quem praticasse as virtudes, a criança seria mais feliz cumprindo o dever, ficando assim com a consciência tranquila. Às vezes tia Lucilia ilustrava sua repreensão ou seu elogio narrando algum episódio da vida de antepassados, ou da história de pessoas que ela conheceu. Com suas recordações do passado, ela exemplificava com pessoas que fracassaram na vida por seguirem o mau caminho, ou pessoas que foram felizes seguindo o bom caminho, apesar de ser mais difícil. Desse modo estimulava os lados bons das crianças e incutia horror aos aspectos maus. Era admirável o senso do bem e do mal, que ela possuiu de modo extraordinário.
Salão na residência de Da. Lucilia, no fundo, a coluna com a imagem do Sagrado Coração de Jesus talhada em alabastro
Salão na residência de Da. Lucilia, no fundo, a coluna com a imagem do Sagrado Coração
de Jesus talhada em alabastro
Catolicismo — Certa vez Dr. Plinio fez referência a uma provação à qual Da. Lucilia foi submetida pouco antes do nascimento dele. Poderia contar para nossos leitores?
Dr. Adolpho — Neste caso, acho que Plinio se referia a um fato que se passou em 1908. Quando ele estava por nascer, o médico preveniu Da. Lucilia de que ela seria submetida a um parto de risco, e tanto ela quanto o filho poderiam não resistir à intervenção cirúrgica. Perguntou se ela concordaria em fazer um aborto, e desse modo garantiria a sua vida. Ela ficou chocada com a pergunta, e respondeu: “Esta é uma pergunta que não se faz a uma mãe. O doutor não deveria sequer cogitar em tal hipótese”. Ela confiou o filho a Deus, o parto se deu com alguma antecedência em relação ao período normal de nove meses, e Plinio nasceu com o peso abaixo do normal, mas logo recuperou plena saúde e peso.
Sala com o quadro de Da. Gabriela na residência de Da. Lucilia
Sala com o quadro de Da. Gabriela na residência de Da. Lucilia
Catolicismo — Sobre a formação que ela deu aos filhos, o senhor se lembra de algo especial?
Dr. Adolpho — A vida de Da. Lucilia foi um exemplo de uma mãe caracteristicamente brasileira e católica. Extremamente bondosa, serena e acolhedora, ela se dedicou afetuosamente, de todo o coração, aos dois filhos Rosée e Plinio, assim como aos sobrinhos, procurando incutir nos pequenos a catolicidade que a caracterizava, proporcionando-lhes ótima formação religiosa.
Dr. Plinio se lembrava de que, ao entrar em casa após alguma atividade externa, sentia o ambiente muito acolhedor de sua residência — os ares “lucilianos”, por assim dizer. Ele se recordava perfeitamente do modo como ela definiu o relacionamento virtuoso e perfeito numa família: “Viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”.
Quarto onde faleceu Da. Lucilia
Quarto onde faleceu Da. Lucilia
Catolicismo — Esses episódios são tão interessantes, que nos agradaria conhecer outros que o senhor possa recordar.
Dr. Adolpho — Dr. Plinio também se lembrava de que, ainda menino, com seus sete anos mais ou menos, lia livros para crianças e fazia considerações sobre a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Com aquela idade, e contemplando as imagens d’Ele, chegou à certeza de que Jesus Cristo era o Homem-Deus. Nisso muito lhe auxiliavam as narrações da História Sagrada que tia Lucilia apresentava para os filhos. Essa formação religiosa foi tão marcante, que aproximadamente naquela idade Plinio dava aulas de catecismo aos empregados da casa, com base no que ouvira de sua mãe.

Pintura a óleo de Da. Lucilia, representada no último ano de sua existência terrena, aos 92 anos
Pintura a óleo de Da. Lucilia,
representada no último ano de
sua existência terrena, aos 92 anos
Catolicismo — Dos últimos momentos de Da. Lucilia, o que o senhor poderia nos dizer?
Dr. Adolpho — Numa reunião com Dr. Plinio, alguém mostrou a ele uma fotografia de tia Lucilia bem idosa, na qual transluzia muito a esperança do Céu e a confiança na misericórdia divina. Mencionando o dito latino “Talis vita finis ita” (tal vida, tal fim), ele comentou que toda a vida dela fora assim, e assim ela caminhava para o final da vida. Nessa foto se percebia a afabilidade, mas também a seriedade de uma pessoa que sofreu e estava tranquila, pronta para se apresentar diante de Deus.
Plinio não assistiu ao desenlace final. Ele estava em casa, mas em outro cômodo. Entretanto, um médico amigo a assistiu e fez uma narração daquele último instante. Disse ele que naquele momento final, apesar da crise cardíaca, tia Lucilia estava muito tranquila, e fez solenemente um grande Sinal da Cruz. Com este sinal, despediu-se da vida e entregou sua alma a Deus aos 92 anos de idade.

22 de septiembre de 2017

UTOPIA IGUALITÁRIA — Aviltamento da dignidade humana

Agência Boa Imprensa – ABIM


UTOPIA IGUALITÁRIA — Aviltamento da dignidade humana

Revista Catolicismo, Nº 801, Setembro/2017

É o título do recente livro de Adolpho Lindenberg, no qual ele denuncia uma “revolução igualitária” surgida no fim da Idade Média e que atinge o seu paroxismo em nosso século

Adolpho Lindenberg
“O termo igualitarismo é um neologismo indicando a intenção revolucionária de nivelar por baixo todos os valores, ou seja, de amesquinhar a personalidade dos homens” [Foto: Luis Guillermo Arroyave]
Faz parte do mito igualitário imaginar que qualquer superioridade gera opressão nos subalternos. Tal concepção marxista é desmascarada por Dr. Adolpho Lindenberg na sua obra. Ele demonstra que as desigualdades harmônicas e proporcionadas são desejadas por Deus, que ama todos seus filhos — ricos e pobres, grandes e pequenos, nobres e plebeus — e as estabeleceu na Criação para o esplendor da ordem social e a beleza do Universo.
            A utopia e a ditadura igualitária, pelo contrário, subjugam e aviltam — observa o autor — a mentalidade das pessoas no mundo moderno, roubando-lhes o que há de melhor para o enriquecimento de suas personalidades e impedindo-as de cumprir plenamente a finalidade para a qual Deus as criou.
            Entrevistamos Dr. Adolpho sobre diversas questões relacionadas com o palpitante tema de seu recente livro Utopia Igualitária. Ele é um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e atual presidente do Instituto que leva o nome de seu primo-irmão, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Engenheiro pela Universidade Mackenzie, sua atividade profissional sempre esteve relacionada com a Construtora Adolpho Lindenberg, uma das mais conceituadas no País, que se notabilizou pela reintrodução do estilo colonial e o lançamento do estilo neoclássico na construção de edifícios. 
“O homem-massa, incapaz de elevar os olhos para o maravilhoso e o sublime, como aquele descrito por Aldous Huxley, é o modelo proposto pelos propugnadores do igualitarismo”
“O homem-massa, incapaz de elevar os olhos para o maravilhoso e o sublime, como aquele descrito por Aldous Huxley, é o modelo proposto pelos propugnadores do igualitarismo” [Na imagem acima, Dr. Adolpho dedica exemplares de seu livro - Foto PRC]
Catolicismo — O que o levou a escrever esse livro no momento atual?
Adolpho Lindenberg — Dr. Plinio Corrêa de Oliveira sempre apontou o igualitarismo como sendo a essência da Revolução — um movimento que visa destruir as ruinas remanescentes da Cristandade —, e que só em nossos dias adquiriu dimensões extremas, de tal magnitude que a denuncia dessa “revolução igualitária” tornou-se impreterível.

Catolicismo — No livro, o senhor utiliza o termo igualitarismo relacionando-o com alguma ideologia?
Adolpho Lindenberg — Esse termo é um neologismo indicando a intenção revolucionária de nivelar por baixo todos os valores, ou seja, de amesquinhar a personalidade dos homens, sua dignidade, sua honra, e todas as demais características que tornam os seres diferentes uns dos outros. É como se assistíssemos ao nascer de um mundo novo com novos paradigmas — nivelamento social, bem-estar do corpo, eliminação das hierarquias —, os quais seriam responsáveis por todas as rivalidades, por todos os ódios, ressentimentos e guerras. O homem-massa, uniformizado, incapaz de elevar os olhos para o maravilhoso e o sublime, como aquele descrito por Aldous Huxley, é o modelo proposto pelos propugnadores do igualitarismo.

Catolicismo — No momento atual, qual é o alvo visado pelos defensores da “revolução igualitária”?
“O alvo dos defensores do igualitarismo sempre foi e será nivelar Deus ao nível dos homens. Eles adotam a doutrina panteísta, que nega a transcendência absoluta do Criador” [Na foto acima: O hippismo em Woodstock (1969)
“O alvo dos defensores do igualitarismo sempre foi e será nivelar Deus ao nível dos homens. Eles adotam a doutrina panteísta, que nega a transcendência absoluta do Criador” [Na foto acima: O hippismo em Woodstock (1969)]
Adolpho Lindenberg — O alvo deles sempre foi e será nivelar Deus ao nível dos homens. Eles adotam a doutrina panteísta, que nega a transcendência absoluta do Criador de todas as coisas em relação às criaturas. Rebaixando a Figura Divina, fica mais fácil destruir na mente humana a compreensão de Deus como o Todo-Poderoso, Magnificente, Infinito, Criador do Céu e da Terra, Juiz Supremo no Final dos Tempos. Eles divulgam a imagem de um Deus semelhante à de um “Papai Noel”, velhusco, conivente e indulgente para com os nossos pecados, sentado nas nuvens, sem nenhuma majestade.

Catolicismo — Quais são as ideologias que mais favoreceram a propagação dos ideais igualitários?
Adolpho Lindenberg — Conforme está descrito na obra Revolução e Contra Revolução de Dr. Plinio, o igualitarismo começou quando a sociedade medieval deixou de ser teocêntrica. O passo seguinte foi a Revolução Francesa (1789), propondo o fim de todas as distinções sociais. Mais tarde adveio o comunismo (1917), propondo o nivelamento econômico e a ditadura do Estado. Finalmente, surgiu o movimento hippie, vanguarda extrema no terreno cultural — anarquista, disposto a combater tudo o que se relacione com ordem, hierarquia, harmonia, beleza e esplendor.

Catolicismo — Seria possível descrever mais pormenorizadamente essa última etapa do processo revolucionário?
Adolpho Lindenberg — A tão celebrada ruptura com o mundo clássico, ocorrida logo após a Primeira Guerra Mundial, através da difusão da arte, da arquitetura e da música modernas, teve por objetivo erradicar todas as formas de beleza, de proporcionalidade, de cognoscibilidade e de elevação que presidiam até então a criação das obras de arte e o modo de as pessoas se vestirem, falarem e se comportarem. A ponta de lança desse flagelo é a Arte Contemporânea, que difunde o nauseabundo, o hermético, o absurdo, o caos.

Catolicismo — Aprendemos nas escolas que a Idade Média foi um “período de trevas” — de estagnação, fanatismo e difamações semelhantes. E que a época histórica, desde o fim da Idade Média até a Revolução Francesa, denominada Ancien Régime, foi um período de snobismo, privilégios e prepotências. Por que razão o senhor elogia em seu livro essas épocas, afirmando que suas virtudes suplantaram seus vícios?
Adolpho Lindenberg — Essas críticas feitas nos dias atuais ao período medieval estão sendo desclassificadas. Historiadores sérios e sociólogos de peso — muitos deles não católicos e, portanto, insuspeitos — nos apresentam um quadro totalmente diverso. Na Idade Média, a preocupação central não era levar uma vida gostosa, emoliente, mas em direcioná-la para um louvor a Deus. Os hábitos primitivos e pagãos dos bárbaros foram sendo gradativamente substituídos por um teor de vida civilizado, cristão, com certa nota de candura e simplicidade. A figura luminosa de São Luís IX, rei da França, encarna de modo perfeito os ideais dominantes naquele tempo.

Catolicismo — Certos historiadores parciais referem-se a torturas, guerras, perseguição às ciências na Idade Média…
Duchamp, o criador da arte contemporânea, apresentou um mictório como peça artística central de uma de suas amostras. E a mídia revolucionária se encarregou de propagar uma extravagância como essa.
Duchamp, o criador da arte contemporânea, apresentou um mictório como peça artística central de uma de suas amostras. E a mídia revolucionária se encarregou de propagar uma extravagância como essa.
Adolpho Lindenberg — No tocante às ciências, nada houve que se assemelhasse a uma hostilidade; pelo contrário, hoje em dia está provado que o período medieval caracterizou-se por um progresso acentuado em todas as áreas do conhecimento humano. Torturas e guerras houve, embora menos do que na Renascença. E cumpre lembrar que os costumes bárbaros vigentes em épocas anteriores só com o tempo foram eliminados, e pouco-a-pouco os bárbaros foram sendo civilizados. A prática das virtudes se estabeleceram ao longo das gerações. O reto agir fez com que os homens aprimorassem suas personalidades, seu modo de ser, sua aparência e passassem a apreciar as coisas por sua beleza, classe e sacralidade. Noutras palavras, as pessoas foram ficando mais civilizadas, mais finas e cultas.

Catolicismo — Em sua obra, o senhor cita exemplos isolados do quotidiano para demonstrar os avanços do igualitarismo, por exemplo, o abandono do uso da gravata ou a montagem de uma poltrona ergométrica. O senhor julga que tais exemplos são suficientes para corroborar suas críticas ao mundo moderno?
Adolpho Lindenberg — Isoladamente, de fato eles dizem pouco, mas vistos em seu conjunto — talvez fosse o caso de enumerar outros fatos numa segunda edição — comprovam que não são inovações esporádicas, mas fazem parte, ao lado de centenas de outros, de uma inundação que mais cedo ou mais tarde vai cobrir o mundo inteiro, pois se trata de um plano universal. Assim, por exemplo, o abandono da gravata parece algo secundário. Mas se essa ablação for acompanhada por dezenas de outras simplificações — o uso de camisas com punhos arregaçados, de bermudões para homens de forma e cor indefinidas, a moda Kitsch para as mulheres —, ficará demostrado que fazem parte de um plano universal, visando rebaixar a aparência humana, tirando-lhe o prumo, a grandeza e o brilho.

Catolicismo  “Plano universal”? O que significa isso?
Adolpho Lindenberg — Para a difusão, num primeiro momento da Arte Moderna e atualmente da Arte Contemporânea, colaboram grandes entidades de caráter mundial, que intentam criar um mundo novo e igualitário, nos antípodas da Cristandade de outrora: a ONU, a União Europeia, fundações como Rockfeller, Ford, Gates e dezenas de outras, bem como universidades dominadas pelo pensamento marxista, grandes grifes orientadoras da moda, revistas e jornais de ponta, e o jet-setinternacional.

Catolicismo — Se esse movimento revolucionário nivelador possui essa força, que procedimento o senhor recomendaria aos nossos leitores?
Adolpho Lindenberg — De início, um esforço pedagógico: eliminemos de nós mesmos as condescendências com esse mundo novo extravagante, bem como essa arte hermética e absurda que nos está sendo imposta. Num segundo momento, procuremos alertar nossos amigos e conhecidos para que vejam com isenção de ânimo o quanto é incongruente e de baixo nível as obras apresentadas nos museus e exposições de vanguarda. Um só exemplo: Duchamp, o criador da arte contemporânea, apresentou um mictório como peça artística central de uma de suas amostras. E a mídia revolucionária se encarregou de propagar extravagâncias como essa.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 801, Setembro/2017.